Etiquetas inteligentes se transformam em instrumento de monitoramento de mulheres em São Paulo

Etiquetas inteligentes se transformam em instrumento de monitoramento de mulheres em São Paulo

A cidade de São Paulo registrou um aumento alarmante no uso de dispositivos de rastreamento, como as smart tags, para monitoramento não autorizado de mulheres. Informações da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) revelam que, no primeiro trimestre de 2026, houve uma elevação superior a 15% nos casos em comparação ao mesmo período do ano anterior. Até março, foram contabilizados 104 boletins de ocorrência, em contraste com 90 registros em 2025, indicando uma preocupação crescente com a utilização da tecnologia para práticas de stalking.

Esses dispositivos, que foram inicialmente criados para ajudar na localização de bens como chaves e bagagens, estão sendo usados clandestinamente em itens pessoais das vítimas. Exemplos incluem mochilas infantis, compartimentos de veículos e até dentro de calçados. O pequeno tamanho e a facilidade para camuflar esses gadgets tornam difícil sua detecção imediata, permitindo que agressores sigam a localização das vítimas por longos períodos. A delegada Cristine Nascimento Guedes Costa, responsável pela 1ª DDM, comentou sobre como essa tecnologia, antes considerada inofensiva, se transformou em uma ferramenta para perseguições, o que demanda investigações detalhadas para descobrir os dispositivos ocultos.

Aumento dos incidentes e obstáculos jurídicos

Um caso marcante envolveu uma pedagoga de 46 anos que começou a receber avisos em seu celular sobre uma AirTag desconhecida que rastreava seu deslocamento. Após extensas buscas, o aparelho foi localizado dentro do tênis do filho de seis anos. Anteriormente, a mulher havia encontrado um gravador escondido em um brinquedo de pelúcia. Embora tenha registrado um boletim de ocorrência e solicitado uma medida protetiva, o caso acabou arquivado, revelando falhas na resposta judicial frente a esse tipo de crime.

Desde que as AirTags se tornaram populares em 2021, os relatos sobre stalking utilizando esses dispositivos aumentaram consideravelmente. Em 2022, uma investigação já havia documentado 150 casos envolvendo essas etiquetas, sendo que 50 deles diziam respeito a mulheres sendo perseguidas. Em 2023, uma ação coletiva foi movida contra a Apple por alegações de que a empresa não tomou medidas adequadas para prevenir o uso indevido dessas tecnologias. A companhia sempre defendeu que suas etiquetas não foram projetadas para monitorar pessoas ou animais; no entanto, as vulnerabilidades continuam existindo.

Alternativas e dever das fabricantes

Além da Apple, marcas como Samsung e Motorola também disponibilizam tags semelhantes no mercado. Modelos genéricos são facilmente encontrados em plataformas online. A falta de barreiras técnicas eficazes para restringir o uso não consentido levanta questões sobre a responsabilidade das empresas tecnológicas. Apesar das atualizações da Apple visando alertar usuários sobre tags desconhecidas próximas a eles, a eficácia dessas medidas ainda é limitada quando os agressores utilizam aparelhos de outras marcas.

Especialistas ressaltam que promover conscientização e educação digital é essencial; no entanto, isso é insuficiente sem o envolvimento das fabricantes. Iniciativas como notificações sonoras mais frequentes e sistemas integrados de alerta entre diferentes plataformas poderiam ajudar na diminuição dos riscos associados. Você pode acompanhar as novidades e informações cruciais sobre tecnologia em tempo real aqui na SpaceMoney.

Enquanto isso, as autoridades em São Paulo estão intensificando o treinamento dos investigadores para identificar esses dispositivos ocultos; no entanto, a prevenção efetiva depende da colaboração entre legisladores, empresas e a sociedade civil. O estigma associado à ideia de que perseguições são meras paranoias deve ser substituído por uma compreensão verdadeira dos perigos que a tecnologia representa quando mal utilizada.