Colapso do debasement trade provoca queda acentuada em ouro, prata e Bitcoin

Colapso do debasement trade provoca queda acentuada em ouro, prata e Bitcoin

Em junho de 2026, o setor de ativos digitais e metais preciosos está enfrentando uma forte correção. O fenômeno conhecido como “debasement trade”, que envolve a aposta na desvalorização das moedas tradicionais, tem perdido força em razão das previsões de um endurecimento da política monetária nos Estados Unidos. O Bitcoin, que é o criptoativo líder em termos de capitalização de mercado, caiu para menos de US$ 62.000, refletindo uma queda de 50% em comparação ao seu pico histórico registrado em outubro de 2025, e encontra-se abaixo da sua média móvel de 200 semanas, atualmente fixada em US$ 62.800. Esse movimento se alinha à queda do ouro e da prata, que também ultrapassaram níveis psicológicos significativos.

O preço do ouro, que alcançou a marca de US$ 5.600 por onça em janeiro de 2025, viu uma desvalorização acumulada de 28%, agora sendo negociado por menos de US$ 4.000. Por outro lado, a prata, que quase atingiu US$ 120, caiu mais de 50%, situando-se abaixo dos US$ 59. A principal razão para essa tendência é a mudança na política monetária com a nova liderança do Federal Reserve sob Kevin Warsh. O mercado já precifica duas elevações na taxa de juros, ambas de 25 pontos-base até março de 2027, o que elevaria a faixa dos Fed Funds para entre 4,00% e 4,25%, em resposta ao aumento das pressões inflacionárias.

Desmantelamento da teoria da desvalorização cambial

A narrativa predominante em 2025 — que postulava que déficits fiscais persistentes e uma dívida pública crescente comprometeriam o poder aquisitivo das moedas fiduciárias — perdeu força com os indícios de que as taxas de juros permanecerão elevadas por mais tempo. Enquanto o Bitcoin se manteve próximo aos US$ 100.000 durante boa parte do ano anterior e os preços do ouro e da prata disparavam, sua correlação com os metais preciosos foi se enfraquecendo. Isso levou muitos investidores a questionar se o Bitcoin ainda age como um hedge contra a diluição monetária, especialmente considerando seu desempenho inferior ao das ações norte-americanas.

Dados on-chain indicam que grandes investidores estão reduzindo suas posições em Bitcoin nas últimas semanas, resultando em fluxos líquidos negativos nas exchanges centralizadas. Além disso, o volume negociado no mercado spot caiu em 35% desde maio, sugerindo baixa liquidez e dificuldades para absorver grandes ordens sem impactar o preço. A capitalização total do mercado cripto despencou para US$ 1,8 trilhão, o menor nível desde novembro de 2024.

Bitcoin avança sobre metais preciosos, mas fica atrás das ações

Apesar desse cenário adverso, há um aspecto positivo para os investidores em Bitcoin: desde fevereiro, quando as relações entre esses ativos estavam no fundo do poço, o criptoativo valorizou cerca de 30% frente ao ouro e mais de 55% em relação à prata. Isso sugere que embora todos os três ativos estejam enfrentando quedas, o Bitcoin está perdendo menos valor relativo. Contudo, no ano de 2026, todos eles ficaram atrás das ações dos EUA, cujas performances têm sido impulsionadas principalmente pelo setor de semicondutores e memória.

Analistas da empresa 10x Research preveem que o Bitcoin pode cair até US$ 55.000 antes de encontrar um suporte sólido — isso representaria uma correção significativa de 56% em relação ao seu pico histórico. Esse nível coincide com a mínima registrada em maio de 2025 e corresponde à área onde há uma alta concentração de ordens de compra nas exchanges. Se o Federal Reserve confirmar o aperto monetário planejado, a pressão vendedora pode aumentar ainda mais, especialmente com um eventual fortalecimento do dólar.

Expectativa por juros altos redefine as alocações

A expectativa pela implementação de duas elevações nas taxas até março de 2027 altera significativamente o custo de oportunidade para ativos não geradores de rendimento como ouro, prata e Bitcoin. Com a taxa real dos juros subindo, diminui-se o apelo por ativos considerados reservas de valor enquanto instrumentos de renda fixa ganham destaque. Essa mudança já é visível no mercado financeiro: a volatilidade implícita para opções com vencimento curto está aumentando enquanto as opções call com vencimento longo perdem valor.

No âmbito do ecossistema DeFi (finanças descentralizadas), observa-se uma queda no valor total bloqueado (TVL), que recuou em 18% desde janeiro e agora está avaliado em US$ 45 bilhões. Protocolos como Aave tentam recuperação após registrar um ganho recente de 5,9% no índice CoinDesk 20; porém, as condições macroeconômicas adversas estão limitando o apetite por risco entre os investidores. A recuperação do mercado cripto dependerá fortemente da orientação futura do Federal Reserve sobre o ritmo do aperto monetário e da capacidade do Bitcoin em sustentar seu nível técnico nos US$ 55.000.