Desvendando o Grande Hiato: Ex-membro do FCA Aponta Falhas na Ambição Cripto Britânica
Isadora Arredondo, ex-funcionária sênior da Autoridade de Conduta Financeira do Reino Unido (FCA) e atual vice-presidente de políticas globais na Hedera, compartilhou em uma entrevista à SpaceMoney as dificuldades estruturais que dificultam a realização das metas britânicas de se tornar um centro global para criptoativos. Segundo Arredondo, há uma discrepância significativa entre a elaboração das políticas públicas e a implementação efetiva pelos órgãos reguladores, o que tem gerado um clima de incerteza para startups e investidores institucionais interessados no mercado londrino.
Descompasso entre política e execução
Durante sua passagem pelo FCA, especialmente no contexto do Brexit e na elaboração das diretrizes iniciais para criptomoedas, Arredondo notou uma abordagem dual do Reino Unido: enquanto avança rapidamente na regulamentação destinada ao setor institucional e atacadista, aqueles voltados ao varejo e as startups enfrentam um processo de autorização demorado e complicado. Esse processo é pautado por regras antiquadas, ao invés de um marco regulatório específico como o MiCA da União Europeia. Essa situação, segundo a especialista, é responsável pela lentidão em tornar Londres a capital global dos ativos digitais.
Arredondo expressou que nunca havia percebido tão claramente a distância entre as aspirações políticas e a realidade da aplicação regulatória. Ela apontou uma grande desarmonia entre os objetivos dos formuladores de políticas e a forma como as normas são implementadas pelas agências no cotidiano. Essa lacuna não é fruto de hostilidade ao setor, mas sim de prioridades conflitantes dentro do próprio governo e da ausência de uma estrutura unificada que una as diferentes jurisdições — como o Tesouro, o Banco da Inglaterra e o FCA.
Novas diretrizes do Banco da Inglaterra
A entrevista aconteceu antes do Banco da Inglaterra ter anunciado novas regulamentações para stablecoins. Nesta ocasião, a autoridade monetária decidiu recuar em relação à proposta anterior que limitava os saldos individuais e empresariais em stablecoins atreladas a moedas fiduciárias. Em vez disso, foi estabelecido um limite temporário de emissão que define um teto de 40 bilhões de libras (aproximadamente US$ 50,6 bilhões) para a circulação total de qualquer stablecoin considerada sistêmica. Essa ação demonstra uma tentativa de equilibrar inovação com estabilidade financeira, embora ainda deixe incertezas sobre a regulamentação de projetos menores.
A influência das instituições financeiras tradicionais
Arredondo destacou que a crescente presença de grandes instituições financeiras no universo cripto evidencia que os conceitos fundamentais do Bitcoin e da tecnologia blockchain estão sendo incorporados pelo sistema financeiro tradicional. O movimento em direção à tokenização, custódia digital e utilização de stablecoins por bancos e gestoras de ativos indica que essa tecnologia está se estabelecendo como uma infraestrutura sólida, apesar da lentidão na regulação.
A executiva observou que o futuro do dinheiro digital será fortemente influenciado pela interoperabilidade e pela adoção de padrões comuns entre blockchains, stablecoins e moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs). Sem essa harmonização, existe um elevado risco de fragmentação do mercado e custos elevados para os usuários finais. Ela defendeu com urgência a necessidade de um framework regulatório coeso no Reino Unido que aborde todos os ativos digitais integradamente, caso contrário, o país poderá perder competitividade frente à Europa e aos Estados Unidos.
Implicações para investidores e mercado
A análise apresentada por Arredondo reflete diretamente as inquietações dos investidores que observam o mercado cripto. A falta de clareza nas regulamentações no Reino Unido tem levado muitas startups a considerar transferir suas operações para regiões mais receptivas, como Singapura, Suíça ou os Emirados Árabes Unidos. Enquanto isso, o volume de negociações nas exchanges britânicas se mantém estável, mas sem apresentar o crescimento explosivo observado em outros centros financeiros globais.
Especialistas consultados pela SpaceMoney afirmam que a decisão do Banco da Inglaterra sobre stablecoins foi positiva ao evitar limites restritivos por usuário; no entanto, não resolve o problema fundamental: a inexistência de um regime específico de licenciamento para exchanges e custodiante de criptoativos. O FCA continua processando pedidos de registro lentamente, criando um gargalo operacional para novos entrantes no mercado. A expectativa é que o governo britânico lance uma consulta pública ainda neste semestre com vistas à criação de um marco regulatório abrangente. Entretanto, até lá, a distância entre as ambições declaradas e sua concretização continuará presente.
