Adoção cripto atinge 1 bilhão de usuários no mundo

O mercado global de ativos digitais acaba de cruzar uma fronteira simbólica: o número de usuários de criptomoedas somou 1,01 bilhão de pessoas, cerca de 12,2% da população mundial, de acordo com o levantamento produzido pela Coinpedia Research. O contingente inclui desde pequenos investidores em economias emergentes até grandes alocadores institucionais nos Estados Unidos e na Europa. O dado ganha ainda mais relevância por ter sido registrado em um momento de correção do setor, cujo valor de mercado está em torno de US$ 2,67 trilhões, bem abaixo do pico de US$ 4,2 trilhões atingido no fim de 2025.
O paradoxo entre o recuo das cotações e a ampliação da base de usuários indica uma mudança estrutural no ecossistema. Segundo a análise da pesquisa, a adoção de criptomoedas deixou de estar umbilicalmente ligada ao preço do Bitcoin, passando a ser estimulada por instrumentos com casos de uso mais claros, como stablecoins, ETFs de exposição direta, projetos de tokenização e sistemas de pagamentos transfronteiriços. Essa reconfiguração tem efeitos práticos distintos entre países desenvolvidos e emergentes, mas aponta na mesma direção: a consolidação dos ativos digitais como camada relevante da infraestrutura financeira global.
Expansão da base ocorre em meio à queda do valor de mercado
O marco de 1 bilhão de usuários globais evidencia que o ecossistema está mais amplo do que a soma das cotações de suas principais moedas sugere. Segundo o estudo, a queda do valor total do mercado cripto para aproximadamente US$ 2,67 trilhões não reverteu a trajetória de expansão do número de detentores. Uma das leituras possíveis é que a atualização de preços concentrou-se em ativos de maior capitalização, enquanto a base de adoção continuou sendo alimentada por novos participantes que encontram nas criptomoedas utilidades financeiras concretas.
A pesquisa também destaca que o perfil de uso mudou. Em mercados maduros, produtos mais sofisticados, como fundos listados em bolsa e ativos tokenizados, vêm atraindo investidores que antes não tinham exposição ao setor por falta de veículos regulados. Já nos países em desenvolvimento, o protagonismo é das stablecoins e dos pagamentos internacionais, utilizados tanto para transações do dia a dia quanto como reserva de valor frente a moedas locais instáveis. Esse fenômeno ajuda a explicar por que o número de usuários continua crescendo mesmo com o mercado de criptomoedas operando abaixo das máximas históricas.
Distribuição geográfica revela adoção liderada por Índia e Nigéria
A Índia mantém a liderança em número absoluto de usuários de criptomoedas, com 127 milhões de pessoas projetadas para 2026, contra 119 milhões registradas no ano anterior. A constância do crescimento indiano se destaca não apenas pelo tamanho da população, mas também pelo avanço das soluções digitais de pagamento no país. Na outra ponta, a Nigéria é o mercado com maior penetração relativa, já que 47% da população adulta local utiliza ou mantém criptoativos — um percentual que reflete a busca por alternativas ao câmbio tradicional e por canais mais baratos de remessas internacionais.
Os Estados Unidos seguem como o principal polo de capital institucional, com 67 milhões de usuários e a maior parcela dos recursos aplicados em ETFs de criptomoedas à vista. O país concentra os produtos regulados mais líquidos do mundo e lidera o movimento de entrada de grandes gestores. Já a América Latina tem o Brasil como protagonista: são 26 milhões de usuários, o equivalente a uma taxa de adoção de 12% da população, e cerca de um terço de toda a atividade regional — percentual impulsionado sobretudo pelo uso de stablecoins e por pagamentos internacionais. O Vietnã, por sua vez, registra 18,7% de adoção, um dos índices mais altos da Ásia.
Stablecoins movimentam US$ 33 trilhões e se consolidam como infraestrutura
As stablecoins emergem como o principal motor quantitativo da nova fase do mercado. A oferta total dessas moedas atreladas a ativos tradicionais alcançou US$ 305,5 bilhões no levantamento mais recente da Coinpedia Research, com USDT e USDC dominando 82% do setor. Apesar da liderança ampla do USDT nas plataformas centralizadas de negociação, o USDC passou a conquistar espaço relevante justamente no segmento mais estratégico para o amadurecimento do mercado: as liquidações institucionais e corporativas.
Os números de volume ajudam a dimensionar esse avanço. O estudo estima que as stablecoins movimentaram US$ 33 trilhões em liquidações anuais — sendo US$ 13,3 trilhões referentes ao USDT e US$ 18,3 trilhões ao USDC. Esse montante já não se explica apenas pelas negociações secundárias de criptomoedas. Cada vez mais, as stablecoins funcionam como meio de pagamento entre empresas, veículo de remessas transfronteiriças e ativo de liquidez para tesourarias, posicionando-se como uma espécie de camada de infraestrutura para o sistema financeiro digital.
Remessas internacionais ganham alternativa mais barata
Um dos efeitos mais concretos do avanço das stablecoins está nas transferências internacionais de recursos. O levantamento da Coinpedia Research aponta que o custo médio global das remessas tradicionais é de 6,49% do valor enviado, mas o percentual esconde realidades regionais muito distintas. Na África Subsaariana, por exemplo, a taxa média salta para 8,78%, podendo superar 30% em algumas rotas específicas do continente — um peso significativo para famílias que dependem de dinheiro enviado do exterior.
Nesse cenário, as rotas baseadas em criptomoedas e stablecoins aparecem como alternativa potencialmente transformadora. A pesquisa estima que corredores digitais conseguem operar com custos totais na faixa de 1% a 3%, já considerando a conversão entre moedas locais e ativos digitais. Se confirmada em escala, essa diferença de eficiência teria impacto direto sobre a renda disponível de milhões de pessoas e pressionaria os provedores tradicionais de remessas a rever tarifas e prazos de liquidação.
ETFs de criptomoedas mudam o acesso do capital institucional
No segmento institucional, os ETFs promoveram uma mudança qualitativa no acesso ao mercado cripto. Segundo o estudo, os produtos regulados listados em bolsa vinculados a criptomoedas registraram US$ 72,9 bilhões em entradas líquidas acumuladas, distribuídas entre 12 ativos já aprovados. O número reflete não apenas o apetite de gestores profissionais por exposição regulada, mas também a consolidação de uma ponte entre o sistema financeiro tradicional e o mercado de ativos digitais.
Os mecanismos de ETF têm papel central nesse processo porque permitem que investidores com mandatos restritos a produtos listados acessem o setor sem a necessidade de custodiar criptomoedas diretamente. O estudo da Coinpedia destaca que os Estados Unidos e a Europa concentram a maior parte desse movimento, com os veículos americanos capturando a fatia mais expressiva dos fluxos. A tendência é que a expansão desses produtos continue reduzindo o custo de entrada para investidores conservadores e abrindo espaço para novas estratégias de alocação.
Blockchains de baixo custo ampliam o uso de stablecoins
O fortalecimento das stablecoins também tem impacto direto na atividade das redes blockchain de baixo custo. A Solana registra 4,7 milhões de usuários ativos diariamente, enquanto a Tron contabiliza 3,7 milhões, conforme o levantamento. Embora essas redes hospedem diferentes aplicações financeiras, parte relevante da movimentação está ligada ao trânsito de stablecoins entre usuários — um padrão especialmente comum em países emergentes, onde esses ativos são usados para pagamentos e proteção patrimonial.
Essa dinâmica sugere que a competição entre blockchains deixou de ser definida apenas por métricas de preço e valorização. A capacidade de processar liquidações baratas e rápidas tornou-se um diferencial competitivo central. Para investidores e usuários, o critério principal tende a ser a utilidade real de cada rede e o custo das transações, e não apenas a expectativa de valorização dos tokens.
